O perigo que ronda a existência do Zé Gotinha

Folha do Araripe

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– Ministério da Saúde quer substituir vacina da pólio em gotas por injetável-

O Ministério da Saúde avalia a substituição completa da vacina em gotas contra a pólio pela versão injetável. Desde 2016, o esquema no Programa Nacional de Imunizações (PNI) já é feito com três doses iniciais da vacina injetável, seguidas por duas de reforço com a famosa gotinha. A mudança para tornar todas as aplicações injetáveis alinharia o país às recomendações da OMS e da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). A alteração deverá ter início gradualmente a partir do ano que vem. O tema depende ainda de avaliação da Câmara Técnica de Assessoramento em Imunização do ministério.

Mas há consenso geral de que a figura consagrada do Zé Gotinha como símbolo da vacinação, será mantida.

“As estratégias de vacinação no Brasil, assim como os imunizantes indicados para cada público, levam em conta o avanço tecnológico do setor e novas evidências científicas, sempre discutidos no âmbito da Câmara Técnica de Assessoramento em Imunizações (CTAI). A substituição da vacina oral contra a poliomielite por uma versão mais aprimorada do imunizante deve ocorrer gradualmente a partir do próximo ano e após avaliação da CTAI”, diz a pasta em nota. A substituição não é nova, e é pautada no Brasil desde 2011. Ela é preconizada pela OMS e já foi instaurada em diversos países, como nos EUA e em nações europeias. A orientação, porém, só é possível devido aos avanços na erradicação do vírus que causa a paralisia infantil, possível graças à gotinha. No Brasil, o último caso de pólio selvagem foi registrado em 1989. No mundo, o patógeno continua endêmico no Paquistão e no Afeganistão. A meta de erradicar a doença n o planeta é hoje uma emergência internacional de saúde pública pela OMS.

Por que trocar vacina de gotinha por injeção?

A poliomielite conhecida como paralisia infantil, é uma doença causada pelo poliovírus, altamente contagiosa. O patógeno é transmitido pelo contato entre pessoas, com fezes e secreções de indivíduos infectados ou por alimentos contaminados. O vírus multiplica-se no intestino e pode invadir o sistema nervoso, onde causa os quadros mais graves de paralisia. A vacina mais utilizada contra o poliovírus foi a Vacina Oral Poliomielite (VOP), a gotinha, também chamada de Sabin por ter sido desenvolvida pelo microbiologista Albert Sabin na década de 1950. Pela facilidade de aplicação, o imunizante conseguiu atingir altas coberturas pelo mundo, eliminando o vírus de diversos países.

No entanto, a vacina é feita com um vírus atenuado, ou seja, enfraquecido, que após a administração é eliminado nas fezes da criança. Ela é segura e eficaz para proteger o indivíduo, mas esse patógeno atenuado pode sofrer alterações antes de ser expelido, o que oferece um risco àqueles que não foram imunizados.“Em raras ocasiões, quando se replicam no intestino humano, as estirpes da VOP sofrem mutações genéticas e podem propagar-se nas comunidades que não estejam totalmente vacinadas contra a pólio, especialmente nas zonas onde não haja uma boa higiene, onde o saneamento seja deficiente ou onde exista sobrepovoamento (excesso populacional)”, explica relatório da Iniciativa Global de Erradicação da Pólio (GPEI, da sigla em inglês). Além disso, outras mutações podem ocorrer à medida que esses vírus enfraquecidos se propagam entre as pessoas. Embora esses patógenos, chamados de “derivados da vacina” não sejam tão graves quanto o pólio selvagem, nem ofereçam riscos aos imunizados, o temor é que essas alterações o levem a recuperar de forma significativa a capacidade de causar paralisia entre aqueles que não receberam a proteção.

“Falta muito pouco para erradicarmos a pólio no mundo. De 1988 para cá, tivemos uma redução de mais de 99,9% dos casos. Mas com a vacinal oral, o vírus vacinal continua circulando e é exatamente isso que precisamos acabar. Somente dessa forma teremos um mundo livre da pólio — diz o infectologista Leonardo Weissmann, diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e membro da Comissão Nacional do Rotary pela Erradicação da Poliomielite, um dos grupos que fazem parte da GPEI. Já a Vacina Inativada Poliomielite (VIP), aplicada por meio da injeção e desenvolvida pelo cientista Jonas Salk na mesma, utiliza um vírus inativado, ou seja, morto. Não há o risco de ele sofrer mutações e se disseminar. Essa substituição entre os imunizantes não é tão simples, uma vez que a gotinha, pela facilidade de manuseio e menor custo, consegue alcançar mais públicos. Por isso, ainda costuma ser privilegiada em cenários de baixa cobertura vacinal para ampliá-la. A troca pela versão injetável é orientada pela OMS apenas a países como o Brasil, que não registram casos de pólio selvagem há anos.

Ainda assim, a atual queda na cobertura vacinal entre as crianças brasileiras é um empecilho que deverá influenciar a avaliação dos especialistas da CTAI. Segundo o Vacinômetro do Ministério da Saúde, apenas 75% das crianças com 4 anos – idade em que é indicado atualmente o segundo reforço com a gotinha – receberam a vacina em 2022, longe da meta de 95%. Ao mesmo tempo que a gotinha pode ajudar a ampliar essa cobertura, a sua continuidade pode oferecer mais riscos às crianças não vacinadas enquanto as metas não são alcançadas, explica Weissman.

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